Anapreto

Escrevo porque

Escrevo por desadequação biológica

Escrevo por desadequação biológica, porque sempre passei demasiado tempo dentro da minha cabeça, não intencionalmente, mas porque nasci assim. Não, nunca me dei o privilégio de me julgar merecedora de escrever-vos, mas aqui e agora, que diferença faz? Por que motivo não hei eu de tentar a arte do entretenimento? Por que não hei eu de tentar ganhar um lugar na sociedade humana com a única coisa que sei fazer e a única coisa que faço — além de arranjar flores e arrancar ervarascos — que não me faz sentir miserável?
Durante anos e anos tentei ser igual, tentei adaptar-me, mas não consegui. No final falhei sempre. Fui jornalista durante toda a minha juventude e estava exausta. Nos últimos doze anos andei perdida no deserto. Fiz coisas que, para o meu feitio, foram como terapias de choque. Tentei ser tudo o que não sou, mas falhei.
Não digo isto para parecer interessante. Sempre lutei contra ser diferente. Ninguém verdadeiramente deseja ser diferente da tribo. A primeira vez que pedi ajuda a alguém, a ideia de que eu estava a pedir ajuda porque me sentia superior aos restantes foi-me de imediato espelhada, injustamente. Uma criança ou adolescente não sabe como são os outros; apenas sabemos o que nos custa ser nós mesmos e como não conseguimos sê-lo, por ser impróprio, inaceitável. Não é com precisão objetiva que tomamos consciência de que há algo errado em nós, mas a ideia paira e a desadequação, em vez de diminuir, cresce até queimar, como cal viva. A última coisa que queremos ouvir quando pedimos ajuda — por nos sentirmos uma vela sem rumo, ao sabor do vento, tentando acompanhar os reflexos dos outros — não é que pedimos ajuda para que nos digam que somos excecionais. Bem pensada, a ideia não tem sentido, mas foi isso o que aconteceu e, assim, tentei ao máximo reduzir-me à minha mediocridade. Tanto, que podeis ler até onde fui, até onde caminhei, até onde a vela solta sem destino me deixou ir.
Agora estou cansada. Preferia ser adequada, mas não sou. Vivo demais na minha cabeça e nem sempre no mundo. É apenas isso. Nada de extraordinário. Há outras pessoas assim, outras crianças assim. Claro, quando se nasce em 1974 em Portugal, tarde ou nunca se chega a perceber, afinal, por que é que não consigo fazer certas coisas muito simples e fáceis, como, por exemplo, ouvir as pessoas a falar, a não ser que seja por uma questão de vida ou morte ou sobre um assunto de grande interesse pessoal. Peço desculpa aos meus amigos que, às vezes, me consideram uma boa ouvinte. Tantas vezes não ouvi nada do que diziam. Tardes inteiras de conversas e eu não sei onde estava, mas era num outro plano, onde giravam outras possibilidades de vida, outra realidade mais entusiasmante para mim.
E é apenas isso. Escrevo porque não vivo na pura realidade. A minha realidade aparece-me alterada por um visionamento peculiar que em vão combati, tentei suprir, e de nada valeu. A máquina animal que me compõe fabrica sempre coisas em cima de coisas, coloca mais palavras em cada recanto das esquinas do que aquelas que cabem nas esquinas. E então, depois do deserto, de tanto caminho andado, estou aqui, porque as minhas esquinas de sonho, a minha perspetiva desequilibrada, a minha visão alterada, maltrapilha, a minha perspetiva do real talvez menos verdadeira, seguramente menos lisa, menos formatada pela regra maioritária, menos criada pela visão do quadrado geral, pela enfadonha esquadria humana que tenta em vão aplanar a natureza selvagem de tudo o que existe, pode fazer-vos sonhar também, rir, espero, e chorar, desejo um pouco.
E é só isso. É bastante simples, mas demorei quase a vida inteira a chegar aqui. Não por não me julgar capaz, apenas por refletir o que pensava ver: “tu não mereces”. Não escrevo por nenhuma razão alta, por um valor humano maior do que “haver sempre coisas em frente a outras” (ideia de Fernando Pessoa), ou por me julgar outra coisa diferente do que aquilo que sou. Escrevo porque tenho de finalmente aceitar quem sou, mereça ou não. Que importa isso afinal?

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